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31/10/2002

Terminando o mês

Legado
Carlos Drummond de Andrade - Claro Enigma - 1951

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho




Eu poderia escolher vários poemas dele para terminar este meu projeto. Mas acho que "Legado" é um dos mais indicados.

Nele Drummond faz uma pergunta chave. Uma pergunta que cada um de nós deveria se fazer um dia.
É também neste poema que Drummond comete um dos seu maiores enganos. O cometeu quando disse que de sua vida só restaria "uma pedra que havia em meio do caminho". Acho que as homenagens que hoje foram feitas em todo o Brasil mostram o erro que ele cometeu.

Quanto a mim, vou parando por aqui a minha "saga" diária. Foram trinta e um dias de leituras. Trinta e um dias de "preocupação" com qual poema colocar, de escrever alguma coisa, mesmo quando não tinha vontade. Sem falar a preocupação de não faltar nenhum dia. Sei que ninguém se importaria com isso, mas eu sim. E consegui não deixar passar dia nenhum.

Gostei muito de ter feito. Pois fui descobrindo algumas coisas que eu não conhecia, relembrando de outras. Não foi muito fácil. Senti vontade de colocar poemas importantes como "A máquina do Mundo", que foi considerado o melhor poema brasileiro do século XX, ou mesmo um poema fantástico como "Especulações em torno da palavra homem". Mas me contive. São poemas complicados, enormes. Fiquei só em alguns mais simples e mais adequados ao formato desta mídia Web. Mas fica aqui a minha recomendação para estes dois que eu falei.

Agora volto a colocar ele mais esporádicamente, só quando me der na telha. Até porque o Fernando Pessoa e seus múltiplos estão reclamando que não apareceram por aqui nenhum dia este mês.

[Esqueci uma histórinha]

Dizem que na intimidade ele era muito bem humorado e brincalhão. Certamente que iria rir muito do que aconteceu no Rio. Ontem foi inaugurada uma estátua dele no calçadão de copacabana. E aconteceu isso que eu li no O Globo:

"Antes de inauguração, a estátua, envolta num plástico da cabeça aos pés, chamou ainda mais atenção no calçadão e pregou uma peça nos policiais do 19 BPM, que passaram via rádio informações sobre "um indivíduo que poderia estar asfixiado". "

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