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31.10.02

 

Terminando o mês

Legado
Carlos Drummond de Andrade - Claro Enigma - 1951

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho



Eu poderia escolher vários poemas dele para terminar este meu projeto. Mas acho que "Legado" é um dos mais indicados.

Nele Drummond faz uma pergunta chave. Uma pergunta que cada um de nós deveria se fazer um dia.
É também neste poema que Drummond comete um dos seu maiores enganos. O cometeu quando disse que de sua vida só restaria "uma pedra que havia em meio do caminho". Acho que as homenagens que hoje foram feitas em todo o Brasil mostram o erro que ele cometeu.

Quanto a mim, vou parando por aqui a minha "saga" diária. Foram trinta e um dias de leituras. Trinta e um dias de "preocupação" com qual poema colocar, de escrever alguma coisa, mesmo quando não tinha vontade. Sem falar a preocupação de não faltar nenhum dia. Sei que ninguém se importaria com isso, mas eu sim. E consegui não deixar passar dia nenhum.

Gostei muito de ter feito. Pois fui descobrindo algumas coisas que eu não conhecia, relembrando de outras. Não foi muito fácil. Senti vontade de colocar poemas importantes como "A máquina do Mundo", que foi considerado o melhor poema brasileiro do século XX, ou mesmo um poema fantástico como "Especulações em torno da palavra homem". Mas me contive. São poemas complicados, enormes. Fiquei em alguns mais simples e mais adequados ao formato desta mídia Web. Mas já fica aqui a minha recomendação.

Agora volto a colocar ele mais esporádicamente, só quando me der na telha. Até porque o Fernando Pessoa e seus múltiplos estão reclamando que não apareceram por aqui nenhum dia este mês.

[Esqueci uma histórinha]

Dizem que na intimidade era muito bem humorado e brincalhão. Certamente que ia rir muito do que aconteceu no Rio. Ontem foi inaugurada uma estátua no calçadão de copacabana. E aconteceu isso que eu li no O Globo:

"Antes de inauguração, a estátua, envolta num plástico da cabeça aos pés, chamou ainda mais atenção no calçadão e pregou uma peça nos policiais do 19 BPM, que passaram via rádio informações sobre ?um indivíduo que poderia estar asfixiado?. "

Ancorado por Cassio Silva |

 

Obrigado Cláudio!!!

Drummond
D u mond
Do Mundo

Ancorado por Cassio Silva

 

Caminhos

Media in Via
Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930

Media in via erat lapis
erat lapis media in via
erat lapis
media in via erat lapis.

Non ero unquam immemor illius eventus
pervivi tam míhi in retinis defatigatis.
Non ero unquam immemor quod media in via
erat lapis
erat lapis media in via
media in via erat lapis.



Este é aquele famoso poema dele só que em Latim. Já coloquei algumas vezes poemas dele em Latim também, e hoje não podia faltar um. E tinha que ser a Pedra no meio do Caminho. O poema que ele escreveu nos anos 20, e que segundo alguns analistas foi o que mais causou polêmica.

Para Drummond era um poema "tão somente de repetição, oito vezes seguida, dos substantivos "meio", "caminho"e "pedra", ligados por preposição, artigos e um verbo"

Foi alvo de todo tipo de críticas: "Tem algumas idéias fixas, como a da pedra, que, se é verdade, não chega bem a ser verso", disse um famoso crítico da época chamado Agripino Grieco - alguém lembra deste crítico hoje? Critivavam também o fato dele ter usado "tinha uma pedra", em lugar de "havia uma pedra".

Críticas, críticas, críticas.. :) Sempre elas. Drummond pelo visto não ligava para elas. O Roberto Marinho uma vez, cedeu espaço para que Drummond e Vinícius de Morais respondecem a um crítico do jornal que falava mal dos dois. Vinícius estava muito danado da vida com isso, mas Drummond falou para ele "Não bate nele não, fica quieto, deixa pra lá", pois para Drummond, "Quando o crítico é burro, e não entende, não há o que fazer, nem o que responder".

Para não ficar só no latim:

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

[Atualizando]

Pelo que eu vi em alguns blogs, este é um dos poemas mais lembrados dele hoje.
Eu até pensei em não colocar ele aqui por isso, mas neste meu "Mês Drummond" seria quase um sacrilégio se eu não colocasse ele.

Ancorado por Cassio Silva

 

31 de Outubro de 1902




Agora a pouco eu lia uma edição especial, no site do Estadão, sobre os 100 anos de Drummond.
Num dos artigos, estava escrito: "Se você lê Carlos Drummond de Andrade para encontrar esperança, desista. Afinal, ele é autor do Soneto da Perdida Esperança: 'Perdi o bonde e a esperança./ Volto pálido para casa.'" E usando esta frase do artigo como um apoio, eu digo: se você não gosta do Drummond e já está de saco cheio de ouvir falar dele, e de ver aqui poemas do Drummond, então eu vou ter que falar que hoje não será um bom dia para visitar este blog.

Drummond é um poeta que está mais do que ligado à minha vida, como eu ao longo deste mês de outubro venho mostrando por aqui. Quando decidi colocar um poema dele por dia e fazer um pequeno comentário, além da minha homenagem a ele, quis também mostrar algumas coisas minhas (como se não fosse isso que faço o tempo todo por aqui), e de como os poemas dele estavam ligados a estas coisas.

Mas agora que chegou o dia, nem tenho muito mais o que falar, afinal não sou ensaista, não sou crítico literário, não sou acadêmico. Sou um cara comum, que tem um blog, e que gosta do Drummond. E que um dia, no final de setembro de 2002, resolveu colocar no seu blog uma homenagem para ele.

Ancorado por Cassio Silva

 

30.10.02

Um nome

José
Carlos Drummond de Andrade - José - 1942

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?



Quando começei o meu "projeto Drummond" aqui no blog, eu não fiz nenhum planejamento prévio escolhendo este ou aquele poema. A não ser dois deles.

Um eu sabia que não colocaria, apesar de ser um dos mais bonitos e sentidos dele. Não o colocaria por uma razão pessoal muito forte e que não vem ao caso explicar.

O único que eu sabia que iria colocar, era este de hoje. "José"
Sabia que iria colocá-lo por alguns motivos. O fato de ser um dos mais importantes poemas dele; O fato de ser um poema instigante; que faz pensar; que machuca um pouco. Mas principalmente por ter o nome "José".

José era o nome do meu pai. E eu, que me chamo Cássio, também sou José.
Cássio José. Muito prazer.

Ancorado por Cassio Silva |

 

Ele falando:

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. "

CDA

[vale dizer]

Este não é o Poema de hoje, até porque não é um poema, certo?? :)

Ancorado por Cassio Silva |

 

29.10.02

Eros

A Lingua Lambe.
Carlos Drummond de Andrade - O Amor natural - 1992

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e quando mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gemidos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.



Este poema é do livro "Amor Natural", editado após a morte de Drummond. É um livro todo de poemas eróticos e todos ótimos. Comprei um exemplar sábado passado. Me deu vontade de colocar todos aqui. Mas me contive.

No ótimo prefácio o Affonso Romano de Sant'Anna fala:

"Àqueles que se habituaram a ler suas crônicas ironicamente suaves, a tê-lo como o velho poeta meio tímido e simpático, este livro pode incomodar. Soará meio agressive encontrar nos seus versos palavras como "clitóris", "vagina", "membro", "bunda", "pênis", "vulva", "nádegas" e "ânus". Mais do que essas palavras, pode incomodar ainda a descrição de cenas eróticas numa linguagem desnuda. Para esses o livro poderá parecer pornográfico. Começarão a vislumbrar atrás do pacato e sóbrio poeta um velho sátiro.

Contudo, para aqueles acostumados a uma literatura mais direta e que cresceram numa sociedade em que o uso do "palavrão" (conceito antigo?) virou banalidade, soará como real a suspeita do próprio poeta de que não deveria publicar estes poemas porque podem parecer coisas de jardim de infância comparados com o que se faz e se ouve por aí"

E agora eu falo:

Ao longo do ultimo ano venho conversando com pessoas no icq, por emails, nos comentários, e até em contatos mais pessoais como jantares. Ao longo deste tempo comecei a pescar aqui e ali a imagem que estava sendo montada sobre mim. A de um cara legal, calmo, amigão, educado, sensível, fofo, etc, etc. Se acho que algumas destas imagens são exageradas, também não acho que eu seja exatamente o contrário. Quem me conhece, e já teve oportunidade de estar comigo, sabe bem como eu sou. E uma coisa que me orgulho é não ser falso.

Mas foi por força desta imagem, que eu começei a me inibir em escrever algumas coisas. E erotismo era uma das inibições. Claro que não vou de uma hora para outra passar a escrever palavrões, pornografia, e agir como um adolescente cheio de hormônios, pois sou acima de tudo um senhor discreto, mas quero deixar claro que sou só um cara normal.

Ancorado por Cassio Silva |

 

28.10.02

Mesmo com riscos, é este que vai hoje

A Noite dissolve os homens
Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do Mundo - 1940

A Noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas ainde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo facista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas de antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.



Não sigo nenhum plano para colocar o Drummond do dia. Simplesmente pego um livro entre os que eu tenho, e saio folheando ele, percorrendo os poemas, deixando que a intuição me diga "É este". E hoje não foi diferente, mesmo sabendo que corro risco colocando este poema aqui.

Risco? Sim!

Risco de ninguém ler, por ser meio grande ;
De não me fazer entender por meio dele;
De eventualmente acharem chato (como alguns já estão achando, este negócio de Drummond todo dia).

Mas mesmo assim, eu vi coisas neste poema que me chamaram a atenção, principalmente depois de ter ficado pensado um pouco hoje a noite, sobre um passado já não tão recente assim. Eu pelo menos gostei muito de tê-lo lido.

E ele foi escrito por volta de 1940.

Ancorado por Cassio Silva |

 

27.10.02

Mineiramente falando

Mão Dadas
Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do Mundo - 1940

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.



Acho que ele estaria contente. Mas manteria aquele ar mineiro de desconfiança e discrição.
Mas certamente teria esperanças.

Ancorado por Cassio Silva |

 

26.10.02

Edição extraordinária dedicada ao Cláudio

Inimigo
Carlos Drummond de Andrade - Boitempo - 1968

Vou brigar contigo.
Vou apanhar e vou sangrar
mas vou brigar.
Tenho que lutar contigo, tenho
de gritar bem alto nomes feios
que sobem à garganta.
Eles crescerão no ar da rua,
subirão às sacadas dos sobrados
e todos ouvirão.
Fui eu quem disse. O magricela. O triste.
Tenho de brigar,
rolar no chão contigo, intimamente
abraçados na raiva. Tenho de
a pontapé ferir o teu escroto.
Pouco importa me batas pelo dobro.
Pouco importa me arrases. Meu irmão
não chamo a socorrer-me. Quero ser
o perdedor que ganha de seu medo.



Este edição extraordinária foi necessária, pois eu vi o comentário que o sr. Cláudio Silva deixou aí para baixo, no post misteriosamente em branco, falando que o Blogger já estava de saco cheio do Drummond. Não era bem o Blogger não.

O Cláudio é quem deve estar de saco cheio, pois como ele não gosta de ler e nunca tem tempo para isso, este blog estaria cheio de figuras, de preferência de mulher pelada, e links de sacanagem.

Mas eu avisei desde o início que eu ia colocar um post por dia com um poema do Drummond. De que reclamas então Sr. Cláudio Silva??

Assim, Sr. Cláudio Silva, por sua causa hoje eu coloco dois poemas e está aí o meu recado: Não apareça na minha frente.
(mas não leve isto em conta na hora de me deixar gravar os cd's ok?)

[só situando a figura]

Eventuais leitores novos não se preocupem com a violência explícita, pois eu, como irmão mais velho da figura citada, tenho o direito de dar-lhe umas porradas de vez em quando.

Ancorado por Cassio Silva |

 

Uma das minhas maiores dificuldades

Acordar, Viver
Carlos Drummond de Andrade - Farewell - 1996

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.



Acordar. Esta é uma das minhas maiores dificuldades.

Quase sempre sou acordado pela minha mulher, pois se deixar eu vou até as 11:00, 12:00, tranquilamente. E acordo quase sempre de mau humor. De preferência não falem comigo antes das 10:00. E quando estou em algum hotel? Terrivel. Coloco celular para despertar; radio-relógio, se tiver um no quarto; marco o despertar na recepção. Tudo isso pois estando sozinho, sei que vai ser impossível acordar sem me chamarem.

Mas dormir é fácil. Hoje de madrugada, conversando com a Alê no icq, simplesmente PINBA! A deixei falando sozinha :(

Amanhã é domingo. Dia de eleição. Meu pessoal está super ansioso para votar. Meu filho já está com uma duzentas estrelas do PT, três colares com "Foice e Martelo", fora as bandeirinhas, bandanas, faixas de cabelo, bandeirões, etc, etc. E por estarem ansiosos, querem ir votar logo cedo. Tentei convencê-los a me esperarem mas a minha mulher falou: "Não quero votar quando você acordar. Quero votar antes do almoço.".

Assim, vou votar sozinho.

Ancorado por Cassio Silva |

 

25.10.02

Mais Canções

Canção Amiga
Carlos Drummond de Andrade - Novos Poemas - 1946-1947

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.



Acho que este foi o primeiro poema do Drummond que eu conheci "conscientemente".

Houve um tempo que eu não ligava para poesia. Pelo contrário, achava chato demais. Talvez por ser obrigado a ler aqueles poemas chatissimos, para uma criança, no primário. Talvez nesta fase eu tenha lido alguma coisa do Drummond, mas entrou pelo olho e saiu pelo ouvido e não se fixou nada.

Com música foi diferente. Sempre gostei. Está certo que tinha um gosto muito estranho quando menino, mas outro dia qualquer eu falo disso.

Um dia eu escutei um LP (sim!!! Era LP ainda!! Não sabe o que é LP??!!! Um dia também explico isso....). Era do Milton Nascimento e tinha nele uma música que eu num primeiro instante não gostei. Mas aos poucos eu fui prestando atenção nela, e vi como era linda, tanto musicalmente, quanto na letra. E era Canção Amiga. E a letra era do Carlos Drummond de Andrade.

Então fui procurar outras coisas dele e acabei lendo "Poema de sete Faces". Cai de joelhos e não levantei mais.

[Não quis tirar isso]

Espaço reservado para o Drummond de hoje.
Agora estou assistindo ao debate.

Ancorado por Cassio Silva |

 

24.10.02

 

Uai sô???!!! Outro logo em carreirinha??

Itabira - Noventa por cento de ferro nas calçadas, oitenta por cento de ferro nas almas.Confidência do Itabirano
Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, qe tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!



Eu explico.

É que hoje, depois de passar uma temporada ancorado, estou indo para Minas Gerais. Uma viagem rápida, daquelas de ir e voltar no mesmo dia. E Ir para Minas tem um problema: na volta é praticamente certo sair atrasado do aeroporto da Pampulha. O Vôo está marcado para 20:10, mas eu sei bem que antes das 21:00, 21:30 ou até mesmo 22:00hs, ele não sai. Foi assim das outras vezes que fui para Minas. Foi assim no dia 18 de Janeiro de 2002, quando era para eu ter saido no mesmo horário de hoje e só fui sair de lá as 23:15.

Eu sou teimoso. Quando encasqueto com uma idéia é fogo. Eu falei que ia colocar um poema do Drummond a cada dia e não quero correr o risco de não fazer isso. E para não correr o risco de ficar sem o Drummond de hoje, por causa de um atraso do vôo da volta, eu resolvi colocar ele agora logo em seguida ao outro.

Ainda mais sabendo que vou passar pertinho da cidade onde Drummond nasceu. No dia 17/01/2002 eu escrevi um post falando disso e vou misturar partes dele por aqui.

Eu estou indo hoje até Barão de Cocais. Já sei que vou dar uma parada num restaurante que eu conheço que fica na estrada, para comer uma comidinha mineira. Nesta estrada, BR 262, pouco antes do restaurante, tem uma plaquinha indicativa. Nela uma palavra só : "Itabira". Foi lá que ele nasceu. Quando eu descobri esta entrada, no dia 18 de Janeiro, eu estava com outras duas pessoas no carro, mas me deu uma vontade de pedir para o motorista dar uma entrada naquela estrada que ia para Itabira. Só para conhecer onde ele nasceu. Mas eu não pude. E nem vou poder hoje de novo. Não vou ter tempo para isso.

A cidade tem espalhada por ela, uma série de placas (43 ao todo), cada uma com uma poesia de Drummond, sempre relativa a caminhos vivenciados por ele, formando um trajeto chamado Os Caminhos Drummondianos. Deve ser uma beleza percorrer estes caminhos.

Fica para uma outra vez.

Em tempo

Barão de Cocais é tão pequeno, que no mapa ai de cima nem aparece. Mas tem a cidade vizinha, Santa Barbara, logo acima de Catas Altas.

Ancorado por Cassio Silva |

 

23.10.02

E já que falei de nostalgia

Memória
Carlos Drummond de Andrade - Claro Enigma - 1951

Amar o perdido
Deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.



Recordar coisas gostosas é muito bom.
E, como eu sempre digo, o tempo é um ótimo cosmético. Mesmo algumas coisas chatas e ruins, quando lembradas muito tempo depois, acabam não sendo vistas como tão ruins. Eu sei que gosto muito de recordar as coisas do passado. Mesmo com a minha memória não ajudando muito.

Pelo menos daqui a alguns anos eu vou ter estas páginas para me ajudar a lembrar das coisas que estão acontecendo hoje em dia. Vou poder daqui a dez anos, por exemplo, lembrar que hoje eu fui num dentista e aconteceu algo inusitado, e que depois fui passear com a minha mulher e meu filho.

Enfim.. Um dia normal, mas com coisas para lembrar.

E como não estou deixando escrito aqui as coisas que me aborreceram hoje, daqui a dez anos (ou dez dias), elas não vão mais parecer que existiram, pois eu não vou lembrar delas.

Ancorado por Cassio Silva |

 

22.10.02

Ela nunca sai de moda

A bunda que engraçada
Carlos Drummond de Andrade

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.



Sempre tive vontade de colocar este poema. E sempre me bateu um pouco de vergonha de fazê-lo. Afinal, bem...Deixa pra lá.

E como estou no "mês Drummond", dá para deixar as inibições de lado e colocá-lo. Até porque, todo mundo já o conhece mesmo. Já o vi em varios blogs por aí e não é nenhuma novidade. E o que não falta são bundas nas tv's e revistas.

Ele é um poema simpático, divertido e bonito. Como uma bunda.

ps:
Poema e Figura tomados emprestados do site "Memória Viva de Carlos Drummond de Andrade"

Ancorado por Cassio Silva |

 

21.10.02

O mais adequado

Cota Zero
Drummond - Alguma Poesia - 1930

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?



É isso.

Ancorado por Cassio Silva |

 

20.10.02

Em 42 eram dois milhões de habitantes..

A bruxa
Carlos Drummond de Andrade - José - 1942

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e calma.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.



Grande?? Sim. Um pouco, e nem é dos maiores. Mas é muito bonito. Portanto, deixa a preguiça de lado e dê uma lida.

Faz assim, não leia agora, já que você está correndo contra o tempo, pulando de página em página. Copie e cole no Notepad, ou no Word, e salve ele em disco, e quando chegar aquele momento que dá para dar uma paradinha, lembre dele, abra o arquivo e leia. Eu acho que você vai gostar.

Além do que, o próprio Drummond pede "Companheiros, escutai-me!". Parece que ele sabia que ia chegar um dia em que as pessoas não teriam mais tempo para ler. Só seria possível passar os olhos.

Ancorado por Cassio Silva |

 

19.10.02

Canção

O Arco
Carlos Drummond de Andrade - Novos Poemas, 1946-1947

Que quer o anjo? Chamá-la.
O que quer a alma? Perder-se.
Perder-se em rudes guianas
para jamais encontrar-se.

Que quer a voz? Encantá-lo.
Que quer o ouvido? Embeber-se
de gritos blasfematórios
até quedar aturdido.

Que quer a nuvem? Raptá-lo.
Que quer o corpo? Solver-se,
delir memória de vida
e quanto seja memória.

Que quer a paixão? Detê-lo.
Que quer o peito? Fechar-se
contra os poderes do mundo
para na treva fundir-se.

Que quer a canção? Erguer-se
em arco sobre os abismos.
Que quer o homem? Salvar-se,
ao permeio de uma canção.

Ancorado por Cassio Silva |

 

18.10.02

Quanta diferença...

Iniciação Amorosa
Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930

A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.

E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando
as pernas morenas da lavadeira.

Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava
no espaço verde.



Lendo este poema, parece mesmo que ele é de um livro editado em 1930. Pois como as coisas são diferentes hoje em dia.

Mas não são tanto assim. Outro dia mesmo eu vi numa notícia de um jornal sobre uma prostituta que contaminou com aids um monte de meninos. Não lembro direito da história, mas foi algo assim. E por que ela contaminou estas crianças? Talvez porque alguns pais idiotas acharam que seus filhos tinham que ter uma iniciação sexual com uma profissional. Triste isso.

Drummond colocou como título "Iniciação Amorosa". Por mais que tenha sido uma ligação carnal, tem um componente amoroso na história do menino na rede.

E na história da prostituta? um componente de ódio.

Bem, é isso por hoje. Estou cansado, resultado de um dia complicado na parte da tarde. Agora é descansar um pouco a cabeça escutando um violino tocando junto com um piano.

Ancorado por Cassio Silva |

 

17.10.02

..........

Esperteza
Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930

Tenho vontade de
-ponhamos amar
por esporte uma loura
o espaço de um dia.

Certo me tornaria
brinquedo nas suas mãos.

Apanharia, sorriria
mas acabado o jogo
não seria mais joquete,
seria eu mesmo.

E ela ficaria espantada
de ver um homem esperto.



Hoje não foi muito fácil decidir qual poema colocar aqui. Eu estava procurando por algo que pudesse falar por mim, mas não encontrei nada. Talvez ele não tenha passado por algumas situações. Ou talvez eu não tenha procurado o suficiente.

E na procura, encontrei algumas coisas interessantes, como o poema "Versos à boca da noite". Começa assim:

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Continuei a ler e virei a página. Me assustei. Ele era muito grande. Eu ia demorar um bom tempo digitando e eu estava querendo fazer outras coisas. E também ele é muito pesado. Já basta o de ontem.

Então achei melhor colocar o poema "esperteza". Pelo menos ali, ele fala de coisas mais agradáveis.

Depois foi outra dúvida. "Que título que eu coloco?? Loura? Não.. Há, deixa sem título. Coloca um monte de pontinhos.... você é chegado mesmo neles...."

Ancorado por Cassio Silva |

16.10.02

Rio de Janeiro, Hoje

Congresso Internacional do Medo
Carlos Drummond de Andrade

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.



Hoje, depois da consulta, dei uma volta pelo shopping onde fica o consultório. Depois, tentando fazer chover nesta cidade, resolvi levar o carro para lavar e trocar o óleo. Voltei para casa, fazendo antes uma parada para um café. Chegando no prédio, passei por alguns vizinhos que estavam na portaria. Em todos estes lugares, escutei pessoas falando dos acontecimentos da madrugada aqui no Rio.

Na volta para casa, parei em um sinal. Um garoto se aproximou para pedir esmola. Um adolescente. Normalmente não me preocupo muito com eles, pois os pedintes costumam ser crianças pequenas. Mas aquele garoto grande se aproximando, ligou uma chave de medo aqui dentro. Mas ele me surpreendeu. Levantou a camisa e deu um giro, me mostrando que não estava armado. Ele deve ter visto o medo na minha cara, ou talvez já faça isso com todo mundo, pois sabe-se lá o medo que ele deve ter da reação das pessoas.

Pensei em dar algum trocado para ele. Mas eu estava sem nenhum. Os últimos foram no café. Me senti meio culpado por isto. Fiquei pensando na velha história (ou lenga lenga) do "problema social" ser causa da violência. Em seguida bateu a dúvida sobre o que aquele garoto ia fazer com algum eventual trocado que eu lhe desse. Talvez fosse comprar alguma droga, e não algo para comer.

Ahhh, sei lá.. Tem coisas que doem e cansam só de pensar, e ver, e sentir....

Ancorado por Cassio Silva |

 

15.10.02

 

Monólogo

O constante diálogo
Carlos Drummond de Andrade

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
                   o semelhante
                   o diferente
                   o indiferente
                   o oposto
                   o adversário
                   o surdo-mudo
                   o possesso
                   o irracional
                   o vegetal
                   o mineral
                   o inominado

Diálogo consigo mesmo
                   com a noite
                   os astros
                   os mortos
                   as idéias
                   o sonho
                   o passado
                   o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
                   e
tua melhor palavra
                   ou
teu melhor silêncio

Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.



Começo com uma observação. Eu venho colocando o post "Drummond" como o último do dia. Como eu não sei se volto aqui hoje, vou colocar como o primeiro de hoje.

Este poema tem uma rápida história. Quando eu reencontrei o livro "Reunião", conforme contei alguns dias atrás, dentro dele estava uma folha de caderno com este poema escrito. Não o coloquei antes pois com tantas coisas que eu já li que são ditas do Drummond, e não o são na verdade, desconfiei que aquele poema talvez não fosse. Até que confirmei ele ontem a noite.

Mas voltando a folha de caderno, olhei a letra, que me pareceu muito familiar, mas não reconheci de imediato. Mostrei para a minha mulher que falou: "Era a sua letra.". Só então eu vi que era mesmo. E vi como era diferente.

Hoje em dia quando escrevo alguma coisa uso teclados de computador e um editor de textos na maior parte do tempo. Raramente uso papel e lápis (ou caneta), e quando o faço é para tomar notas de reuniões; necessidades de usuários, ou situações de erro. E sempre com pressa, rabiscando na maior parte do tempo. Mas naquela folha de caderno não. A letra estava "calma", bem desenhada. Não que fosse uma letra bonita, mas era bem legível e para mim, agradável.

Mas o que incomodou um pouco, foi ter vindo à cabeça o cara que escreveu aquilo um dia. Um cara que não existe mais. Que se modificou e que hoje esta bem mais "rabiscado" que aquele. Senti saudades dele.

Atualizando

Eu recebi hoje uma pequena reclamação de uma pessoa, sobre o "excesso" de Drummond por aqui. É que possivelmente a pessoa não leu o dia 02/10 quando eu falei que iria colocar um poema por dia durante todo o mês de Outubro, como forma de comemorar o centenário do nascimento do Drummond. Já respondi o email, mas quis colocar este comentário aqui, pois algumas pessoas podem também estar achando a mesma coisa.

E tudo bem que você goste mais de Vinícius. Eu gosto mais do Drummond :) (sem brigas, por favor...)

E por falar em dialogo, nem tenho feito muito nos comentários. Leio todos, mas estou meio sem tempo para responder. :(

Ancorado por Cassio Silva |

 

14.10.02

Mesma coisa

Igual-Desigual
Carlos Drummond de Andrade - A Paixão Medida - 1980

Eu desconfiava:
Todas as histórias em quadrinhos são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais

Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais.
E todos, todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
Ímpar.



Nem ouso alterar nada do que ele falou, mas eu acrescentaria:

Todos os dias e noites super quentes são igualmente horríveis.
Todas as preguiças são muito aborrecidamente iguais.
Todas as alergias ou coisas que não sabemos o que é mas que irritam (principalmente a garganta), são monstruosamente iguais.

Mas uma coisa não acho muito igual não. Mas falarei disto depois, em outro canto.

Ancorado por Cassio Silva |

 

13.10.02

Hoje não podia ser outro...

Oficina Irritada
Carlos Drummond de Andrade

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.



Podia?

De qualquer forma, a irritação já baixou para níveis aceitáveis de tolerância. Como eu fiz? Vamos ver se eu consigo falar.

Primeiro de tudo: Me isolar. Claro que relativamente. Hoje foi um daqueles dias que eu queria estar num quarto de hotel, sozinho. Mas já que não foi possível, fiz um isolamento físico "meia-boca". E um isolamento virtual completo. Se eu não estou bem, não vou passar isso para as pessoas, irritando-as também.

Depois, o tratamento de sempre. E agora, não posso deixar de falar do sorriso que dei quando vi o comentário que a Midori Elis deixou no post aí de baixo: "eu fico melhor quando ouço música...". Eu também Elis!

Hoje por exemplo, passei a madrugada, manhã, tarde, baixando umas coisas. E quando eu escutei duas delas em particular, dei uma boa melhorada. Duas músicas bem "porrada", daquelas que doem no ouvido. E quando eu percebi que uma delas começava com a frase que coloquei no post imediatamente anterior a este, não deu para resistir: "Climb on the boat, oh friend of mine, and we'll sail away"

Para ajudar, recebi uma música calminha.. para fazer contraponto com a "pancadaria" auditiva das outras. E finalizando os "remédios" músicais, recebo um email da Pandora falando: "Pode me mandar aquela música do DMB que voce vive falando? aquela tal quarenta e um" Claro que teve um pouco de falta de respeito dela, que deveria ter se referido à música da forma correta: #41. Mas vou dar um desconto, pois nem iniciada a Pandora é. Mas só o fato dela vir, por livre e expontânea vontade, procurar pela música já me deixou contente :)

E assim aos poucos a irritação diminuiu. Mas não acabou.

Ahhh, esqueci de falar que tudo isso foi regado com toneladas de Pepsi Twist (aquela com limão) e um picolé de tangerina (bergamota, mexerica, pocã, etc) também.

Ancorado por Cassio Silva |

 

12.10.02

Corpo

A Hora Do Cansaço
Carlos Drummond de Andrade - Corpo - 1985

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.



Nesta "viagem" diária pelos poemas do Drummond, sempre tenho tentado escrever alguma coisa que esteja relacionado com o poema que eu escolho. Tem dado certo até agora, mas não sei se vai ser sempre assim.

Hoje por exemplo. O que eu podia falar sobre o poema "A Hora Do Cansaço" ? Que é bonito e triste? Sim. Mas se é bonito e triste, também é verdadeiro.
Que faz pensar? Claro que faz. Qualquer poema faz. E este faz pensar nos relacionamentos, sejam de amor ou de amizade. Pensar o quanto queremos que algo dure para sempre, mas como quase nunca conseguimos isso. Não vou falar mais deste poema não. Ele está aí para ser lido, degustado e pensado por cada um.

Quero agora falar do livro Corpo.

Não é de hoje que eu gosto de Drummond. Antes de começar a namorar a minha mulher, há vinte anos atrás, eu já gostava e escrevia poemas dele para ela e para uma amiga nossa. Não era "chaveco" com elas não, pois nunca fui de fazer isso. Dava um trabalho danado escrever duas cópias de cada poema para uma e para a outra. Mas eu gostava de fazer isso.

Acabei namorando a minha mulher e claro que não foi por causa dos "Drummond" que eu dava para ela ler. Acabei ganhando dela dois livros dele: "A Paixão medida" e "Corpo". E este livro, "corpo", que está agora na minha mão, tem uma coisa especial: Uma assinatura do Drummond.

Ela passou por uma livraria que estava vendendo vários livros autografados pelo Drummond. O livro tinha sido lançado recentemente e teve uma noite de autográfos na livraria. Depois que terminou, Drummond deixou com o dono da livraria vários exemplares autografados para serem vendidos, e um deles veio parar na minha mão. Claro que não preciso dizer que este livro é de estimação.

Claro que não tinha nenhuma dedicatória. Nem ao menos escondida como eu costumo fazer de vez em quando.

Ancorado por Cassio Silva |

 

11.10.02

Dia da Criança

Infância
Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro... que fundo !

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.



Será que tem uma forma melhor de ser criança do que numa fazenda? Infelizmente minha infância já foi na cidade, assim como a dos meus filhos. Eu falei já foi na cidade, pois a do meu pai, foi passada numa fazenda do meu avô em Minas, que nem cheguei a conhecer. E nem sei direito esta história da fazenda, nem que fim foi dado a ela. Quem sabe o Claudio tem mais detalhes. Vou perguntar para ele depois.

Amanhã é dia das crianças e vou ter que levar o mais novo no programa que ele escolher. Até agora, depois de umas dez opções descartadas, quer ir ao cinema. Eu queria ver Sinais, mas ele escolheu ver o Scooby-Doo.

E lá vou eu, amanhã, assistir este treco.

Ancorado por Cassio Silva |

 

10.10.02

Um problema bancário

Salário
Carlos Drummond de Andrade

Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.
Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!



Este poema é muito divertido, mas muito triste de se ler. Principalmente no início do mês quando se tem aquele monte de de contas para pagar.
É terrivel quando se passa o dia inteiro tentando tirar um extrato bancário para ver como anda o numerário.
Depois de muito tentar acessar a conta pela internet, acabei indo ao banco. E as duas máquinas que imprimiam extratos estavam com a impressora ruim.
Por isso que eu não acredito neste negócio de computador e informática.

Este lance de depender de salário, é mesmo um calvário.

ps.

Vou ficar devendo em que livro e ano este poema foi publicado. Estou sem uma das minhas fontes de consulta.

Ancorado por Cassio Silva |

 

9.10.02

História Universal

Balada do Amor Através das Idades
Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando eu ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois, (tempos mais amenos)
fui cortesão em Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina;

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.



Este é um poema que eu gosto muito.
Sempre que eu o leio, me vem na cabeça as imagens das cenas descritas. Como um filme.
Aliás, um filme baseado neste poema seria bem legal.
Com direito a final feliz.

Ancorado por Cassio Silva |

 

8.10.02

One Sweet World

O Sobrevivente
Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)



Por volta de 1930, ele escreveu este poema. E ali, ele já falava que "Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.". Já naquela época, existiam "máquinas terrivelmente complicadas", e de alguma forma já existia o sexo virtual ("Amor se faz pelo sem-fio")

Já se passaram setenta e dois anos. Mudou alguma coisa? Mudar, mudou sim. Mas não para melhor. Tudo por causa de uma coisa que ele mesmo falou: "Os Homens não melhoram". E apesar disso, o mundo ainda é azul. Por enquanto.

Mas mudando de assunto um pouco, olhando a frase final do poema (Desconfio que escrevi um poema), dá para imaginar que no dia que escreveu isso, ele estava meio sem inspiração. Um pouco como cada um de nós quando abre o w.Bloggar ou a página do blogger pensando em escrever um post e as ideias não descem (ou sobem).

Mas existe uma grande diferença: Daqui a setenta e dois anos, ninguém vai estar pegando um post nosso para colocar em uma outra página para falar alguma coisa sobre ele. Primeiro tem que existir alguém daqui a setenta e dois anos.

ps.:

Eu sei, eu sei..
Quando ele escreveu "Desconfio que escrevi um poema", claro que ele estava querendo mostrar a contradição com o ínicio do poema, onde fala impossibilidade de se escrever um poema. Mas eu quis fazer um exercício de imaginar ele sentado numa mesa com uma folha de papel em branco na frente e com uma caneta na mão, pensando em algo para escrever.

ps.:(2)

Não sei onde eu estava com a cabeça quando fiz esta conta: 2002 - 1930 = 71.
Já foi devidamente corrigido.

Ancorado por Cassio Silva |

 

7.10.02

Ressaca Carioca

Consolo na Praia
Carlos Drummond de Andrade
A Rosa do Povo - 1945

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.



Hoje eu quis colocar este poema dele, que foi publicado num livro de 1945, chamado A Rosa do Povo.
Mas esta é a verdadeira Rosa do povo. Uma Rosa com espinhos mas com um odor adorável. Espinhos que espetam um pouco ao serem lidos, como no verso "Perdeste o melhor amigo", mas para logo depois dar o conforto de "Mas tens um cão.".

Quis colocar este poema, principalmente, por causa da primeira estrofe: "Vamos, não chores... A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu." Acho que alguns de nós estão (estamos) precisando de uma lembrança desta.

E afinal (e no final), fica sempre a pergunta: E o Humour?

Ancorado por Cassio Silva |

 

6.10.02

Final de Domingo

Poema que aconteceu
Carlos Drummond de Andrade
Alguma Poesia - 1930

Nenhum desejo neste Domingo
Nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possivel que se soubesse
nem ligasse.



Eu vou colocar este poema dele aqui hoje. Primeiro porque é Domingo. Segundo porque hoje os homens (e mulheres é claro) de certa forma pararam para acompanhar os resultados das eleições. E para muitos que vão acompanhar a apuração, o domingo não terá fim..

Mas uma coisa eu não concordo com o poema do Carlos não.
É com o verso "Nenhum desejo neste Domingo".
Primeiro porque sempre tenho os meus desejos de domingo. Não são muitos, mas possuo alguns.

E também, porque neste domingo em particular, nesta hora que estou colocando este poema, ainda se juntou um desejo em especial: Que possamos votar num segundo turno para governador, aqui no Rio.

Ancorado por Cassio Silva |

 

5.10.02

Estrela? Estrela!

Castidade
Carlos Drummond de Andrade
Brejo das Almas - 1934

O perdido caminho, a perdida estrela
que ficou lá longe, que ficou no alto,
surgiu novamente, brilhou novamente
como o caminho único, a solitária estrela.

Não me arrependo do pecado triste
que sujou minha carne, suja toda carne.
O caminho é tão claro, a estrela tão larga,
Os dois brilham tanto que me apago neles.

Mas certamente pecarei de novo
(a estrela cala-se, o caminho perde-se),
pecarei com humildade, serei vil e pobre,
terei pena de mim e me perdoarei.

De novo a estrela brilhará, mostrando
o perdido caminho da perdida inocência.
E eu irei pequenino, irei luminoso
conversando anjos que ninguém conversa



Bem. Em épocas como a nossa, poemas como este podem ser lidos por diversos ângulos. (que besteira que eu falei. Qualquer poema pode ser lido por diversos lados, em qualquer época.)

Eu, quando vi este poema ontem tive um rápido arrepio. Me lembrei de duas pessoas, e dei para elas este poema. Fiz isso motivado pelo impacto da coincidencia de ver as estrelas nele colocadas pouco depois de ter acabado de ver as estrelas por elas faladas em posts.

E depois eu fiquei lendo ele. E vi que ali tinha um monte de coisas sendo ditas. E até agora, ainda não terminei de ler.

Ele fala por exemplo em caminho.
Eu finalmente me decidi por um caminho.
Não sei se é o melhor. Mas é o caminho que eu quero tomar, e sei que junto comigo estão muitas e muitas pessoas.
Portanto não vou sozinho. E com certeza, estou em muito boa companhia.

Ancorado por Cassio Silva |

 

E se ele fosse vivo? Em quem iria votar?

Depois do quase atropelamento da <censurado>, digo, da Garota, eu fui no tal shopping. Queria passar na livraria e comprar um livro do Drummond. Tem vários que eu não tenho. Mas lá não tinha nenhum. Semana que vem eu vou na FNAC. Lá eu sei que tem.

Mas surgiu uma pequena polêmica aqui em casa agora a noite. Eu levantei a questão: "Em quem o Drummond votaria se fosse vivo?".

Minha mulher não tem dúvida em quem:

"- No Lula, afinal Drummond era comunista. -Disse ela
- Ahhh era? Mas comunista o Roberto Freira também era e está apoiando o Ciro.. - Retruquei eu.
- É, mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. E além disso o Drummond era como eu. Agnóstico
- Ahhh meu Deus do céu!! e o que isso tem haver com política?
- Nada, mas eu quis falar isso."

Já já eu coloco o poema de hoje. Para quem não acompanhou desde o início do mês, eu estou colocando um poema do Drummond a cada dia durante o mes de Outubro. Em homenagem ao centenário do seu nascimento.

Ancorado por Cassio Silva |

 

4.10.02

Pai, O que é volapuque?

Poema da necessidade
CDA - Sentimento do Mundo - 1940

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores,

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.



Quando eu li o poema acima para o meu filho menor ontem a noite, ele me fez a pergunta que eu coloquei lá no título.

- Pai, o que é volapuque?
- E eu sei lá! É uma coisa que o Drummond colocou neste poema

Nós começamos a falar de outras coisas, como a Caixa de CD's com toda a coleção da Superinteressante que eu dei para ele, e que ele adorou, e acabei esquecendo do tal volapuque. Agora a pouco lembrei dela novamente. E nada melhor para descobrir o que significa uma coisa, do que ir ajoelhar lá no altar de São Google.

Descobri um artigo do Otto Lara Resende, onde ele explica o significado :

Quase simultaneamente abriu-se em Brasília um congresso internacional de esperanto, que se pretende uma língua capaz de levar-nos todos de volta à véspera da Torre de Babel. O seu engenhoso inventor, o médico polonês Zamenhof, teve mais sorte do que outros colegas de utopia idiomática. O volapuque, por exemplo, que é outra tentativa de comunicação universal, também do século XIX, mal passou de seu criador, o padre alemão Martin Schleyer. No Brasil, já teríamos perdido a memória da simples existência do volapuque, se não fosse um verso de Carlos Drummond de Andrade.

Aprendido então o que é o tal Volapuque, vou para casa, pois estou com fome e quero ver se pego ele ainda acordado para explicar. Se é que ele ainda lembra da pergunta que me fez.

Ancorado por Cassio Silva |

 

3.10.02

Reunião

Mas a melhor coisa de terem desencavado aquela montoeira de livros velhos, foi que a minha mulher achou no meio deles, e me "deu de presente", o livro "Reunião - 10 livros de poesia" do Carlos Drummond de Andrade, que reúne 10 dos livros de poesia dele.

Eu julgava perdido este livro. Pensava que tinha emprestado para alguém e não lembrava para quem. Procurei por ele nas livrarias há tempos atrás e não encontrei. Acho que saiu de catálogo. Uma edição comemorativa do centenário, reunindo toda a poesia foi lançada mas achei muito caro. Agora nem esta eu encontro encontro mais.

Pelo menos eu reencontrei o meu "Reunião". Reencontrei, não! Ganhei de presente :)
E já que voltei para casa, hoje fica este:

Sweet Home
(CDA - Alguma poesia - 1930)

Quebra-luz, aconchego.
Teu braço morno me envolvendo.
A fumaça de meu cachimbo subindo.

Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês.

O jornal conta histórias, mentiras...

Ora afinal a vida é um bruto romance
e nós vivemos folhetins sem o saber.

Mas surge o imenso chá com torradas,
chá de minha burguesia contente.
Ó gozo de minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!
Ó bocejo de felicidade!

Ancorado por Cassio Silva |

 

2.10.02

Comemoração

No dia 31 de Outubro próximo, será comemorado o centenário de nascimento do Carlos Drummond de Andrade, o meu poeta preferido, como é de conhecimento de todos.

Como eu poderia comemorar?
Se eu fosse poeta, escreveria um poema.
Um músico talentoso, pegaria um poema dele e faria uma música em cima.
Um pintor, talvez fizesse um desenho ou um quadro.

Mas eu sou só um analista de sistemas. Escrever um programa, ou mesmo um sistema, que levasse o nome dele, não seria nem um pouco interessante.

Mas eu tenho um blog. Portanto pensei, "Porque não colocar um poema dele a cada dia do mês de Outubro?" Já que eu tenho mania mesmo de colocar poemas por aqui, é isto que vou fazer. Já coloquei um ontem. Claro que muita gente não gosta de poemas; que vão aparecer poemas que são muito conhecidos e que todo mundo já leu mais de trezentas vezes. Mas vai ser uma forma deu me lembrar dele a cada dia, e reler a sua obra também.

Hoje vou colocar um pequeno, pois já "falei" muito (até um pequeno conto eu me atrevi a escrever, coisa que nunca tinha feito antes.)

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

[Descobri ele em latim também!]

Bis Gemina Chorea

lohannes ardebat Theresiam quae ardebat Raymundum
qui ardebat Mariam quae ardebat loachim qui ardebat Lilim
quae ardebat neminem.

lohannes ad Status Foederatos fecit iter, Theresia ad claustrum,
Raymundus fatali obiit casu, Maria vitam vixit virgo,
loachim propria se interfecit manu atque Lilim sibi iunxit J. Pinto Fernandes
qui fabellam non ingressus fuerat.

[cometi uma falha]

Não citei a origem do poema em Latim.
É uma tradução de Silva Bélkior, que encontrei nesta página,

Ancorado por Cassio Silva |

 

1.10.02

Este foi o Primeiro dele

Poema de sete faces
Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundom,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Ancorado por Cassio Silva |